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PM dá uma lição de solidariedade

Publicado em 03-02-2010

Avaliado em R$ 23.500, o Ford Ka preto parado no estacionamento da Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) equivale a quase dois anos de salário do soldado da Polícia Militar Roselito Wanderley de Souza, 35. A questão financeira, porém, nem passou pela cabeça do policial quando ele decidiu doar à AACD o veículo conquistado em uma promoção. Na manhã de ontem, na sede da entidade, na Ilha Joana Bezerra, região central do Recife, foi realizada a cerimônia de entrega do carro. Quem via Roselito, no traje negro da Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas (Rocam) e sempre de mãos dadas com a mulher, tinha a impressão de que era ele que havia recebido o presente.

"Agradeço a Deus por essa oportunidade. Não foi um ato de loucura, foi de consciência", afirmou o policial, que não tem carro. A ideia de doar o veículo veio quando Roselito viu o anúncio da promoção "Que loucura você faria para para ganhar um carro zero", do Shopping do Automóvel, no Centro de Convenções, em Olinda. "A AACD é perto de onde trabalho. Quando passava no local, sempre via várias mães carregando filhos especiais e aquilo me tocou" contou ele, que não tem nenhum deficiente físico na família.

A frase que inscreveu para competir com milhares de outras foi a seguinte: "Doaria esse carro ou com a renda dele reverteria 100% do valor arrecadado para a AACD ou qualquer outra instituição indicada pelos organizadores para fazer, com apoio do Shopping do Automóvel, um ano-novo mais feliz para as crianças especiais". "Assim, eu joguei toda a responsabilidade para cima de quem ia escolher", explicou Roselito.

Morador de Nova Descoberta, na Zona Norte do Recife, o policial vai trabalhar com sua moto CG Titan. A mulher dele, a estudante Josileide Luiz de Souza, 31, e a filhinha Maria Regina, 2, andam de ônibus, mas não reclamam. "Estou muito feliz, por mim a gente faria isso de novo", diz Josileide. Em tom de brincadeira, ela define o marido com quem vive há sete anos como um "maluco", mas do tipo que "que pensa mais nos outros que em si mesmo".

Os outros, nesse caso as crianças tratadas pela entidade, fizeram questão de agradecer. A pequena Fernanda Carolayne Silva Ferreira dos Santos, 6, munida das muletas mais estilosas de toda a AACD, não desgrudou de Roselito. "Ela chegou aqui sem andar e já fez oito cirurgias", explicou a mãe Josicleide Lira do Nascimento, 48, sobre a filha, que hoje não para quieta e até arrisca alguns passos sem as muletas.

O ato de solidariedade não valeu uma promoção a cabo, mas deixou o soldado "bem na fita", nas palavras do próprio comandante geral da PM, coronel José Lopes. "Ele ganha pouco (segundo o coronel, o salário de soldado é de R$ 1.100), não tem um carro e, mesmo assim, doou o que ganhou, algo que todo mundo almeja. Claro que passa a ser visto como uma pessoa diferenciada dentro da corporação", afirmou o oficial.

Doação de policial é fato

inédito em PernambucoA AACD gasta mensalmente o equivalente em dinheiro a 34 carros como o doado pelo policial Roselito de Souza para fazer 680 atendimentos diários. Mesmo assim, a lista de espera da entidade é de 4.559 consultas e 1.486 terapias. Daí a importância da doação feita ontem pelo policial. "Todo o dinheiro que recebemos é diretamente revertido para os atendimentos", afirmou o gerente administrativo da unidade Pernambuco, José Nunes Junior. De acordo com ele, uma doação como a feita por Roselito de Souza é inédita. "Pelo valor dado por uma só pessoa é uma coisa muito atípica, inédita em Pernambuco", disse o gerente.

A maioria da verba utilizada para manter a entidade vem do Sistema Único de Saúde (SUS) e das doações feitas por meio do Hipercard. "As doações feitas em nossos cofrinhos instalados nos comércios também são muito importantes", afirmou José Nunes.

A AACD, localizada na Ilha Joana Bezerra, é responsável pelo atendimento de 15 Estados das regiões Norte e Nordeste. No cadastro da unidade, há 4 mil pacientes, muitos deles em tratamento por vários anos. Só no ano passado, foram realizadas 15.614 consultas e 95.415 terapias.

Construída em uma área de 15.000 metros quadrados, desde 1999 a AACD atende crianças e adultos com diversos tipos de necessidades.

Além dos tratamentos médicos voltados exclusivamente a deficiências, a unidade também oferece atividades de lazer, educação e diversos tratamentos, como atendimento odontológico. Segundo a direção da unidade, 70% dos atendidos são crianças. Entre os adultos, há muitos que foram vítimas de acidentes de moto.

Informações sobre como doar à AACD podem ser obtidas por meio do telefone 81 3419-4000.

 

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